Ladainha da Suíça, Textos da Europa – III

Portugal … 25 de Abril …

Li pela primeira vez este poema lindo de morrer, de António Nobre (1867-1900, poeta português.) há pouco tempo, e surpreendeu-me.
antonio_nobreÉ dedicado à Suíça, em agradecimento a uma estadia num Hospital provavelmente católico, por uma doença que não sabemos qual é — pelo menos eu não sei. *
Nobre descreve a experiência maravilhosa que teve: relata um contacto sincero cheio de ternura e interesse entre Norte e Sul da Europa. Uma mensagem extraordinária de paz.  Tenho a certeza de que os Suíços gostariam de a ler…. — como tal pensei que deveria ser mais conhecido — e que outros, muito podem aprender com ela. Note-se que o ano foi de 1896! Uma mensagem para todos nós, quanto a talvez três ideias ilusórias: uma, a de que nos movimentamos sempre em “progresso”. Outra, a de que as guerras mundiais foram instrumentos de avanço. E finalmente: a de que as guerras sejam consequências de certos fenómenos populares, como por exemplo, ideias que os povos têm uns dos outros, as suas inimizades… Pelo menos… algumas guerras e conflitos têm sido fabricados por interesses completamente estranhos, quase alienados dos povos, andando depois eles a sofrer com os restos dos atritos que foram criados como instrumento de acção e de permissão. Há ainda em elemento de Cristianismo, a observar-se…
Enfim tudo junto, aqui fica, para quem queira aproveitar, o que puder.

Devido a problemas com o meu computador, é possível que não consiga publicar outras partes do que gostaria de dizer.

ESTA MENSAGEM DEMOROU PRATICAMENTE TODO O DIA A PODER SER PUBLICADA.

LADAÍNHA DA SUÍÇA

Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo
Pelas ruas, vendo-me passar:
— Vem tão doentinho, olhai ! e é ainda tão novo…
E assim sozinho, sem ninguém para o tratar !
( Que boa a Suíça ! que bom é este povo ! )

Raparigas de luar, pastoras d’estes Andes,
Diziam entre si: Quem será este senhor ?
Todo de preto, tão pálido, olhos tão grandes !
E rezavam por mim, baixinho, com amor.
( Ó pastoras tão meigas d’estes Andes )

Por fim entrei receoso em uma casa imensa
Com Jesus Cristo ao fundo e velas e alecrim.
Treme-me ainda hoje a minha alma se n’ela pensa:
Rezas… doentes… ais… corredores sem fim!…
( Ah que tristeza a d’essa casa imensa! )

No alto da escada umas Irmãs da Caridade
Vieram, a sorrir, perguntar: “Como vai ?
No olhar d’elas (tão doce!) havia tal bondade,
Que me julguei feliz, até sorrir, olhai !
( Minhas boas Irmãs da Caridade ! )

Uma d’elas guiou-me ao quarto onde a paisagem
Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou…
— “E então como passou? Gostou da sua viagem?
E a Nossa-Suiça que tal acha, não gostou ?
( Ó Suíça da divina paisagem ! )

Não me deixava com perguntas. Era Suíça
E não deixa nunca esta alva nação.
Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:
Tudo n’ela era instinto, inocência e perdão.
( Que ingénua és ainda, Suíça! )

—Vá quero que me diga o seu nome, primeiro
E depois d’onde vem, quem é… pelo falar…
—Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.
E ela tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar !
( Nos meus olhos o viste tu primeiro. )

Com que doçura, com que mimo e com que graça
Me arranjou tudo! Até meu leito quis abrir
E como uma ama diz ao menino que a enlaça,
Disse-me: “Boas noites. Faça por dormir!…”
( Ó Suíça cheia de graça ! )

E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,
E no outro dia eu já estava melhor.
Passados três, passei de pálido a moreno
Passado um mês, “não é nada” disse o doutor.
( Oh! quanto eu era então feliz, sereno !)

E a boa irmã toda contente e dedicada
Que sempre estava à escuta em biquinhos de pés
— Vê, tantos sustos ! e afinal não era nada !
E se ele disse “não é nada”, é que não é !
( Ó boa Irmã, de voz tão delicada! )

Falou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve
A minha doida mocidade arrependida.
Benditos sejais vós, Alpes cheios de neve!
Benditos sejais vós que me salvaste a vida !
(E o meu coração que doce paz vos deve! )

Bendita sejas tu, ó Suíça meiga e boa !
Gloriosa entre os mais povos, sê bendita !
Bendita sejas tu, de Cristiana a Lisboa !
Bendita sejas tu entre as nações, bendita !
( Bendita sejas, minha Suíça tão boa! )

(Lausana, 1896)
(pag. 401, Poesia Completa, Dom Qiuixote)

  • E quando se trata de homens, houve, desde sempre, extrema descrição nas questões das suas doenças, enquanto mulheres discretas e amorosas, deles cuidavam. Uma tradição graciosa de respeito pela integridade das pessoas, a qual seria boa ideia manter, renovar e começar em relação às mulheres também.
    Se repararem, a atitude no que respeita a biografias, é totalmente diferente em relação a mulheres e homens, sejam artistas, sejam filósofos, sejam religiosos. Esta diferença radical continua ainda hoje em dia, mesmo em plena Europa (basta lerem as biografias de qualquer artista), e é por isso que não quero deixar passar a oportunidade de fazer esta observação. No entanto, o tema desta mensagem, é o acima descrito, e não este.

(Creio que A. Nobre sofreu (e morreu?) de tuberculose).

 

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